Nova liderança no etanol
29
de agosto de 2011 | 3h 44
Notas e Informações
Se dependesse apenas dos planos do governo do PT e dos discursos do ex-presidente Lula, o Brasil deveria ser há muito tempo o principal fornecedor de etanol para os Estados Unidos. Na realidade, porém, o Brasil passou a grande importador do produto americano. E, justamente por causa do aumento das importações brasileiras, os EUA devem tornar-se, neste ano, o maior exportador mundial de etanol.
Dois relatórios divulgados nos últimos
dias por instituições dos EUA - uma associação de produtores
de combustível de fontes renováveis e o Departamento de
Energia - mostram que, neste ano, as exportações de etanol
americano poderão alcançar de 1,9 bilhão a 2 bilhões de
litros, superando pela primeira vez as vendas externas do
produto brasileiro, que devem totalizar de 1,2 bilhão a 1,6
bilhão de litros. Embora tenham problemas para abastecer o
mercado doméstico, os produtores brasileiros precisam manter
as exportações para cumprir contratos firmados com seus
clientes.
Há uma ironia nessa mudança no
comércio mundial de etanol. Ela ocorre no momento em que o
mercado que mais arduamente o ex-presidente Lula tentou
conquistar para o produto brasileiro começa a se abrir para
o etanol estrangeiro - mas o Brasil não pode aproveitar
essa oportunidade, pois não produz o suficiente nem para
abastecer o mercado interno, daí a necessidade de
importação. Neste ano, o Brasil deve importar 1,6 bilhão de
litros de etanol, mais do que a importação recorde de 1995
(1,4 bilhão de litros).
O governo não parece preocupado com
essas mudanças. O ministro de Minas e Energia, Edison
Lobão, minimizou o impacto da quebra da safra de
cana-de-açúcar da Região Centro-Sul, cuja produção foi
afetada pelas chuvas intensas de 2009, pela seca de 2010 e
pelas geadas de 2011. "Houve uma pequena quebra de safra,
conjuntural, episódica, e que acontece sazonalmente com
todos os produtos do mundo", disse o ministro na sexta-feira
passada, durante a inauguração de uma destilaria em Colina,
no interior de São Paulo.
O descompasso entre a demanda e a
produção, que tem forçado a importação de etanol em volumes
crescentes, também é visto como uma situação natural pelo
governo. "Importamos etanol suficiente para manter o mercado
abastecido, e a garantia que o governo pode dar é que não
haverá falta do produto nas bombas", completou Lobão.
Considerados pelo governo brasileiro
como ineficazes - por utilizarem o milho subsidiado como
matéria-prima para a produção do álcool, de qualidade
inferior do ponto de vista ambiental ao etanol produzido a
partir da cana -, os produtores americanos ficarão muito
satisfeitos com a disposição das autoridades de assegurar a
normalidade do abastecimento interno por meio da importação.
Para o governo, o aumento da
importação é uma questão passageira. O ministro citou
medidas já anunciadas para o aumento da produção em ritmo
suficiente para assegurar o abastecimento interno e o
crescimento das exportações, considerando-as suficientes
para afastar o risco de crise futura. Uma dessas medidas é a
imposição, à Petrobrás, do aumento de sua participação na
produção de etanol. Se os planos do governo e da estatal
forem executados de acordo com o cronograma, em 2015 a fatia
da Petrobrás na produção doméstica poderá alcançar 12%
(atualmente, é de 5%).
Lobão citou também a existência de
linhas de financiamento disponíveis no BNDES e no Banco do
Brasil para investimentos em canaviais. Não deixou de citar
também a criação de um estoque regulador do combustível,
medida citada por produtores e economistas do setor como
indispensável para evitar a escassez e os movimentos bruscos
do preço do etanol para o consumidor. Mas é preciso que esse
estoque deixe de ser apenas um plano.
O que a sucessão de problemas de
abastecimento doméstico e, agora, as mudanças no comércio de
etanol deixam claro é que de nada adianta promover o produto
brasileiro se não estiverem asseguradas as condições
necessárias para o crescimento contínuo da produção.
http://www.estadao.com.br/
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